17 dezembro 2013

Serra e programa dão a Aécio dianteira na oposição

João Bosco/ Estadão
O lançamento dos princípios que nortearão a campanha do PSDB no mesmo dia em que o ex-governador José Serra abre caminho à consolidação da candidatura do senador Aécio Neves (MG), são dois fatos importantes não só pela perspectiva de unidade que projetam, mas também por queimar etapas no processo de afirmação do partido como principal concorrente ao segundo turno contra a candidatura oficial da presidente Dilma Rousseff.
Por mais que estivesse acertado com Serra o apoio ao senador mineiro para março, sua antecipação se reveste de duplo efeito – o de ganhar tempo, fator decisivo na corrida sucessória, considerado o primeiro trimestre curto de 2014, e o de eliminar um foco de tensão que perduraria por mais três meses, restringindo a liberdade de movimentos daquele que já se sabe o candidato ungido pela maioria partidária.
Aécio ocupa o espaço oposicionista na sucessão abrindo uma dianteira sobre seu rival de primeiro turno, o socialista Eduardo Campos, que permanece no estágio das negociações internas e em fóruns fechados, estrategicamente importantes, mas sem visibilidade pública. Seguirá Aécio em algum momento, mas por ora ainda opera no círculo das alianças e dos ajustes com a Rede, de Marina Silva.
Projeta também o desenho do que se constitui o segundo desafio de sua candidatura – a unidade São Paulo/Minas, a exigir mais que a pacificação com Serra. Esta é o ponto de partida para a busca da conciliação de interesses regionais em São Paulo, que envolvem também as alianças do PSB com o governador GeraldoAlckmin, construídas na eleição de 2010 e que abrange centenas de candidaturas federais, estaduais e municipais.
A iniciativa de Serra de antecipar seu apoio não ocorre apenas pela pressão interna, mas também pela conclusão de que alcançou o que parece ter sido seu objetivo desde o início: resgatar o patrimônio político afetado pela derrota para a prefeitura, cujo impacto pareceu, à época, determinar sua aposentadoria.
O empenho em manter acesa a possibilidade de disputar a condição de candidato com Aécio, inseriu Serra nas pesquisas que comprovaram seu amplo prestígio eleitoral, em que pese a alta rejeição que o acompanha. Credencia-se ao Senado ou à Câmara ambientes que, indistintamente, lhe garantem uma liderança política nacional e, principalmente, dentro de seu partido.
Nos cálculos de Aécio, desde sempre, o desafio mais importante é uma frente de votação significativa nos estados de Minas e São Paulo, embora isso não signifique negligenciar o restante. Mas uma boa margem sobre seus adversários nesses dois estados pode ser capital eleitoral decisivo se somado a um desempenho razoável nas regiões Norte e Nordeste.
Segundo seu raciocínio, a enorme vantagem aberta por Dilma, em 2010, no Norte e Nordeste, não se repetirá em 2014, não só pela mudança de cenários no primeira, como pela presença de Eduardo Campos no segundo. Nos dois casos, a oposição se fortaleceu e tornou mais difícil a reprodução, pela candidata à reeleição, dos cenários anteriores.
Esses movimentos reduzem as desvantagens em relação a Dilma Rousseff, mas não revertem a frente da presidente na corrida sucessória e nem afeta o poder da candidatura oficial, sentada no cargo que lhe dá mídia espontânea e desproporcional em relação aos demais.
No entanto, é exatamente a superexposição a que os condutores da candidatura oficial submeteram a presidente, que pode exibir seus limites. Com toda a overdose midiática produzida, a recuperação de Dilma parece ter como teto não mais que 45%, índice ainda de risco para quem tenta a reeleição e se beneficia da estrutura de poder para tal.
Não há, à frente, previsões de fatos novos que autorizem otimismo ao governo e que, por extensão, projetem novo crescimento significativo da presidente. Ao contrário, a luta do Planalto, já de algum tempo, é para retardar os efeitos da crise de confiança na economia sobre o bolso do eleitor, o que desidrataria a candidatura.
Teoricamente, Dilma só tem como expectativa de crescimento o erro dos adversários, que não conseguiram ocupar o espaço de mudança registrado nas pesquisas – falha que Aécio tenta reparar a partir de agora. Não se trata de tirar os méritos dos estrategistas presidenciais, mas de descortinar os limites aos quais estão condicionados, ditados principalmente pela pouca ou nenhuma expectativa de melhora da economia
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