07 março 2014

ARTIGO: "Um humanismo mais humano"


 Relendo algumas obras escritas recentemente, como esta da jornalista e professora Lya Luft, que também é colunista da revista Veja, e fiquei extasiado e ao mesmo tempo preocupado, primeiramente por ter lido uma das poucas obras que retratam a forma que o ser humano tem se comportado perante seu próximo, e segundo, preocupado por uma obra pequena e tão importante, quase tenha passado desapercebido por mim. Tenho o hábito de guardar artigo,s e as vezes, relê-los no futuro, em outros casos, quando não os tenho lido, mesmo assim os guardo, e aguardo o momento oportuno de cumprir este oficio, e foi assim que pude ter o privilégio de me deparar com esse artigo simples, e de tamanha importância, no qual reproduzo abaixo;

Um humanismo mais humano

As frases do papa Francisco brotam naturais, sem artificialismo. sem populismo. sem interesse pessoal nem solenidade — nascidas da sabedoria, experiência, realismo e franqueza, como: "Precisamos de um humanismo menos desumano" nesta época de "feroz idolatria do dinheiro". Homens assim nos dão alguma esperança de que o país mude. carentes que estamos de líderes confiáveis, cegamente confiáveis, como bons pais devem ser confiáveis.

Talvez, mudando o pensamento geral, segundo alguns conceitos de Francisco, seja possível arrumar a casa com projetos realistas: recursos existem. Valorizando mais a vida. olhando o bem do povo — que não são apenas os pobres, mas todos os que trabalham tentando construir um lugar mais respeitado e respeitável —, o humanismo busca o bem do homem. Não preciso especificar "do homem e da mulher", pois não somos ignorantes a ponto de não saber que em casos como esse "homem" é agenérico, não se refere apenas ao ser masculino. Porém parece prevalecer entre nós o humanismo desumano: o desvario da ganância, a luta sangrenta pelo poder, o desrespeito à ética mais elementar, os serviços caros, insuficientes, inúteis, desviados de sua função, carentes e pobres.

Recentemente as televisões do país (repetidas no exterior) mostravam médicos e enfermeiros tentando desesperadamente salvar a vida de um paciente no chão de um corredor de hospital. Por falta de aparelho, faziam massagem manual no coração do doente — no chão de pedra do corredor. Não faltavam médicos: faltavam leitos, aparelhos, limpeza, faltava a essência que possibilitaria salvar aquela pessoa. Outra reportagem mostrava um médico com lágrimas nos olhos que acompanhou uma paciente em vários hospitais, sem conseguir que fosse internada, e ela, com apenas 45 anos, morreu na sua frente. Não faltou médico: faltou lugar decente para sobreviver ou mesmo para morrer, pois nenhum ser humano deve morrer no chão, como um animal. É desse humanismo desumano, centrado no homem consumista e manipulável, que falava o papa, dizendo ainda que, enquanto houver uma criança passando fome. um jovem sem educação, um velho sem atendimento médico, ninguém deverá dormir em paz, como um pai não dorme em paz se a seus filhos falta o elementar.

Esta coluna sai próximo do Dia dos Pais: ignoremos as propagandas românticas mas mercantilistas. os gestos vazios e talvez hipócritas, e, em cada uma dessas datas dedicadas a mãe, criança, pai, avós, vamos curtir o afeto. O agradecimento. As doces memórias para quem os perdeu. O abraço, o telefonema, o beijo, a risada, a alegria, que na correria cotidiana a gente tantas vezes esquece. Pois essas ocasiões, se não contaminadas, podem nos salvar da indiferença ou da selvageria que rondam. O presente pode ser esse telefonema, esse abraço, essa lembrança simples: aliás, quanto mais simples, melhor, pois não entramos na corrida consumista. não é preciso sermos "mais generosos" no preço do presente, mas mais amorosos com nosso pai nesse dia.

Quem sabe optando por um verdadeiro humanismo vamos descobrir quem desejamos no poder: pessoas que não super-valorizem o poder, mas a justiça, a ordem, a eficiência, a misericórdia — que faz parte da grande política; que administrem de forma excelente os bens do país que são do povo. de cada um de nós que trabalhamos para pagar altos impostos com tão pouco retomo, nós que sofremos e morremos nos corredores de hospital, sem boa escola, sem transporte decente, fechados em casa pela insegurança geral, de tantas coisas órfãos.

Essa mudança de pensamento e postura começa na nossa família, no primeiro convívio que nos forma — e dali pode se espalhar como conceito e prática pelas comunidades, pelas cidades, pelo país. Assim veremos que é possível haver líderes que sejam presença alerta e aberta, trabalhando, acima e além de crenças e ideologias, por mais justiça, dignidade, amparo, crescimento para seu povo — como faz por sua família um pai que não é proprietário nem capataz, mas parceiro e cuidador.

(Introdução, HOLDEN ARRUDA)

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