30 março 2014

Bruno disse que Deus o salvou do suicídio. Não foi Deus. Foi o Brasil que coloca a culpa na mulher pelos estupros. E que lhe oferece contrato para voltar a jogar. Apenas quatro anos após ter sido o mentor do assassinato de Eliza Samudio. Que país é esse?

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada é um dos órgãos sérios no país.
4reproducao Bruno disse que Deus o salvou do suicídio. Não foi Deus. Foi o Brasil que coloca a culpa na mulher pelos estupros. E que lhe oferece contrato para voltar a jogar. Apenas quatro anos após ter sido o mentor do assassinato de Eliza Samudio. Que país é esse?Seus estudos são referência.
Ele acaba de
 divulgar o resultado de um deles.
“Estupros no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde."
Foram ouvidas 3.810 pessoas.
65% foram mulheres.
Os números são impressionantes.
As perguntas foram diretas.
"Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas?"
A maioria dos entrevistados, 42,5% disse sim.
"Se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros."
Outra vez, a maioria concordou, 35,3%.
A sociedade brasileira acredita que as vítimas são culpadas...
A divulgação da pesquisa acontece com uma triste coincidência.
Quando a revista Placar anuncia uma exclusiva com Bruno.
Mais uma vez o ex-goleiro foi ouvido na cadeia.
Ele foi condenado por sua participação na morte de Eliza Samudio.
Tem de cumprir 22 anos e três meses de prisão.
A própria advogada de Eliza expôs o que pensava dela.
"Era uma Maria Chuteira teimosa."
Anie Ferreira da Silva Farah sabe o que diz.
Ela detalhou a admiração de Eliza pelos jogadores de futebol.
O encanto que despertava na sua cliente a vida de fantasia e luxo.
Não esconde que ela viu na ligação que tinha com Bruno uma escada social.
Principalmente depois que engravidou do goleiro.
Mas foi justamente quando o sonho se transformou no maior dos pesadelos.
De acordo com os depoimentos de Eliza, Bruno foi claro.
"Ele mandou que eu tomasse remédios para provocar o aborto.
Eu tomei, mas não deu certo."
A partir daí, ela começou a pedir dinheiro ao jogador.
As ligações eram constantes e Bruno cada vez mais agressivo.
Por uma questão de segurança, a advogada mandou que ela deixasse o Rio.
E viesse ter o filho em São Paulo.
Mas as ligações e mensagens no celular de Eliza continuaram.
Até que um dia Bruno a teria chamado para ir ao Rio.
Ele queria conhecer o filho e colocar um fim na questão.
Daria a ela um apartamento em Belo Horizonte.
Anie teria insistido para ela não ir.
Não confiava em Bruno.
Mas Eliza foi e nunca mais voltou.
Luiz Henrique Ferreira Romão, amigo de Bruno entrou em cena.
O 'Macarrão' teria contratado um ex-policial.
Marcos Aparecido dos Santos teria como missão matar Eliza.
E esconder todos os vestígios do seu corpo.
Macarrão revelou que Bruno tinha plena consciência do que iria acontecer.
O ex-jogador negou por muito tempo, mas finalmente admitiu.
"Eu sabia e imaginava o que iria acontecer com ela."
Macarrão foi condenado a 15 anos de prisão.
Bola nunca confessou.
Mas pegou 22 anos por morte e ocultação de cadáver.
Bruno, 22 anos e três meses.
Homicídio, ocultação, sequestro e cárcere privado, as acusações.
O ex-jogador teve sua pena aumentada em sete meses.
Brigou com dois detentos.
E teria dito ao coordenador do seu pavilhão.
"Eu mando pegar e matar fora da cadeia também."
A previsão é que possa pedir sua liberação em agosto de 2020.
Passar ao regime semiaberto.
Mas ele quer antecipar esse prazo.
E sair para jogar futebol.
Assinou em fevereiro contrato com o Montes Claros.
Time que disputa a Segunda Divisão do Campeonato Mineiro.
Assinou por cinco anos.
2reproducao12 Bruno disse que Deus o salvou do suicídio. Não foi Deus. Foi o Brasil que coloca a culpa na mulher pelos estupros. E que lhe oferece contrato para voltar a jogar. Apenas quatro anos após ter sido o mentor do assassinato de Eliza Samudio. Que país é esse?
O contrato já está registrado na Federação Mineira.
E no BID da CBF.
O clube alega ser possível que ele treine e jogue.
Desde que escoltado por policiais.
Seus salários seriam de R$ 1.430,00.
E multa rescisória de R$ 2,8 milhões.
Bruno está preso no Complexo Penitenciário Nelson Hungria, em Contagem.
Para voltar aos campos deveria ser transferido para Montes Claros.
A justiça não analisou ainda o pedido.
Mas Bruno está fazendo sua parte.
Mostrando que os quatro anos que está preso já serviram como castigo.
À Placar ele disse que esteve disposto a se matar.
Mas Deus o salvou, Deus...
"Tentei o suicídio. Amarrei o lençol na ventana, que é alta, coloquei no pescoço e saltei. Mas a corda arrebentou e eu caí no chão. Olhei para o lado e tinha uma bíblia, que um policial tinha me dado ainda no Rio de Janeiro. Foi Deus que não permitiu que eu me matasse."
Tenta melhorar sua imagem.
"Muita gente acha que, por ter sido jogador de futebol, eu tenho regalias aqui. E não tenho. Pago um preço alto pela fama. Já costurei bola aqui dentro. Tem muito jogador que gosta de colocar a culpa na bola. Mas agora eu conheço cada ponto da bola. Sei quando o cara está dando migué. A bola aqui do presídio não é ruim, não."
Lógico que depois pede para ser liberado.
"Me deixem jogar."
O machismo da sociedade brasileira e Bruno estão ligados.
Mais do que se imagina.
Encontrei um funcionário da Federação Paulista de Futebol no mês passado.
Ele me chama e diz que deseja falar de Eliza Samudio.
Me pede sigilo, mas faz questão de repetir em voz alta.
"Ela era uma Maria Chuteira de primeira. Estava sempre nos jogos importantes caçando jogador de futebol. Principalmente nos estádios aqui de São Paulo. No Morumbi, Pacaembu. Conseguia entrar onde jornalistas não chegam. E trocava telefones com atletas. Vivia pedindo caronas para eles. Lamento que ela tenha morrido. Mas ela era uma grande Maria Chuteira. Estava sempre de saia curtinha, salto alto, blusinha apertada. Estava procurando. E achou."
Disse como se fosse justificativa pelo assassinato.
Se fosse um dos jurados, inocentaria Bruno.
E teria prendido, mesmo morta, Eliza.
O futebol brasileiro é muito preconceituoso.
Os tempos são outros.
Se as mulheres são mais liberais não podem ser mortas por isso.
Ou se fuzile de vez todas as Marias Chuteiras do país.
3reproducao8 Bruno disse que Deus o salvou do suicídio. Não foi Deus. Foi o Brasil que coloca a culpa na mulher pelos estupros. E que lhe oferece contrato para voltar a jogar. Apenas quatro anos após ter sido o mentor do assassinato de Eliza Samudio. Que país é esse?
Não fosse o machismo no futebol...
Os sinais de desequilíbrio de Bruno seriam levados a sério.
Bruno tentou defender Adriano.
Ele teria trocado empurrões com sua então noiva Joanna.
"Qual de vocês (jornalistas), que é casado e nunca brigou com a mulher? Que nunca discutiu e que nunca até saiu na mão com a mulher?"
Bruno era titular do Flamengo.
O clube era presidido por uma mulher, Patricia Amorim.
A repercussão da sua declaração foi sorrisos cúmplices.
Muita gente no clube da Gávea concordou.
Bruno ganhava cerca de R$ 200 mil.
Estava sendo oferecido a clubes europeus.
E sonhava com a Seleção Brasileira.
Enquanto isso era pressionado por Eliza.
A ameaçou várias vezes de morte.
Ela aceitou falar ao jornal Extra.
Deixou um depoimento que foi seu testamento.
O depoimento é um soco no estômago da sociedade.
Um aviso do que iria acontecer.
Ela disse que se morresse a culpa seria de Bruno.
Registrou queixa e mesmo assim não adiantou.
Algo inacreditável.
Apenas quatro anos depois...
O mentor confesso de sua morte quer voltar a jogar.
Já tem até contrato assinado e registrado na CBF.
Que pais é esse?
É o Brasil que coloca a culpa do estupro na mulher.
Eliza Samudio morreu não porque Bruno é um psicopata assassino.
Mas porque era Maria Chuteira.
Ela se enforcou e se enterrou embaixo de uma placa de cimento.
Bruno que cumpra a sua pena.
Pague pelo que fez antes de voltar à sociedade.
No mínimo em 2020, o que ainda é uma pena muito branda.
Assim como os dirigentes do Montes Claros têm a obrigação de raciocinar.
E pensar no que estão fazendo ao dar um contrato para Bruno.
Que olhem bem para suas mulheres e filhas.
Pensem em Bruninho, com a mãe assassinada a mando do pai.
Não avó do menino implorando aos assassinos.
Pedindo que revelem onde está o corpo.
Para ao menos poder ter o direito de enterrar a filha.
E eles insistem em dizer não.
Não é possível tanto descaso com a vida humana.
Ou talvez seja....
A pesquisa do IPEA tem a explicação...
1reproducao18 768x1024 Bruno disse que Deus o salvou do suicídio. Não foi Deus. Foi o Brasil que coloca a culpa na mulher pelos estupros. E que lhe oferece contrato para voltar a jogar. Apenas quatro anos após ter sido o mentor do assassinato de Eliza Samudio. Que país é esse?

Por Cosme Rimoli-R7
Postar um comentário