18 março 2014

Toque de reunir

Dora Kramer


Dora Kramer - O Estado de S.Paulo

O senador Aécio Neves não tem a ilusão de que os atritos do governo possam levar o PMDB a mudar formalmente de lado na eleição, mas já se prepara para fazer um "chamamento forte" aos dissidentes do partido.
Na visão dele, o governo terá o que quer: os pouco mais de quatro minutos de tempo de televisão, que fazem a presidente Dilma Rousseff engolir sapos a mancheias.
A mesma certeza já não se aplica ao empenho das máquinas estaduais do PMDB País afora na reeleição de Dilma ou à fidelidade de deputados, senadores, dirigentes e candidatos pemedebistas à decisão da convenção.
Certo de que a direção do partido não terá como conter a insatisfação explícita da dissidência, o candidato do PSDB acha que poderá contar com pelo menos uma boa parte da mobilização do PMDB em sua campanha.
Antes de lançar o apelo, que obviamente terá referência às antigas lideranças pemedebistas como o avô Tancredo Neves, Aécio precisa ter consolidadas negociações em andamento sobre alianças com candidatos do partido nos Estados e um ambiente que seja reconhecido como um porto seguro (notadamente na economia) por vários setores da sociedade.
A segurança ele pretende transmitir exibindo cada vez mais seu "time". Gente que trabalha na linha de frente do programa de governo e na retaguarda da campanha. Vários desses nomes aos poucos vão aparecendo ou ao lado do candidato ou em eventos do partido.
Dois dos mais assíduos: Armínio Fraga e José Roberto Mendonça de Barros. A ideia de Aécio é que à medida que esse pessoal que participou da elaboração e execução do Plano Real e do governo Fernando Henrique for aparecendo, a candidatura vá conquistando a confiança do mercado.
Na comemoração recente dos 20 anos do Real, toda a equipe participou de um seminário onde se discutiu a política econômica com duras críticas ao atual governo. No próximo dia 1.º de julho, quando se comemoram duas décadas da entrada em circulação da moeda, haverá atos em todas as capitais.
Na política, seu maior ativo será justamente o ex-presidente, que em campanhas presidenciais anteriores foi "escondido" pelo partido devido aos baixos índices de popularidade.
FH terá papel, ainda não definido, mas de destaque. Há quem no PSDB defenda que ele integre a chapa como vice de Aécio, possibilidade considerada muito remota. Dependeria da vontade do ex-presidente.
Essas conversas surgiram depois que pesquisas qualitativas feitas pelo PSDB em 19 Estados indicaram uma recuperação expressiva da imagem de Fernando Henrique, principalmente entre os jovens e no eleitorado de São Paulo.
No meio político, teria a vantagem de ser um conciliador, ao contrário de Dilma Rousseff. Nessa seara, contudo, terá um adversário de peso na figura do ex-presidente Luiz Inácio da Silva, também visto nesse mundo como dono de atributos opostos aos da sucessora.
A despeito das especulações, nenhum dos dois seria candidato a vice na chapa de seus candidatos. Isso contrariaria qualquer lógica. Eles foram presidentes. Não faria sentido concorrerem como linha auxiliar numa disputa em que um está necessariamente fadado à derrota e quem ganha, de fato não leva.
Não entra mosca. Calada (em público), a bancada do PT na Câmara observa os colegas do PMDB reclamarem de falta de prestígio e diálogo por parte do Palácio do Planalto.
O silêncio deve-se em parte ao reconhecimento de que há desapreço ao Congresso de maneira geral, mas deve-se também a um sentimento de injustiça que o partido por dever de ofício não pode vocalizar.
Um de seus destacados integrantes explica a razão do desconforto: "O único partido da base que não indica ministro é o PT. Quem indicava era o Lula e hoje é a Dilma, muitas vezes com o aval de Lula".
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