07 julho 2013

ARTIGO: Governo deve fazer a sua própria reforma




Estadão/João Bosco
Há algum avanço na aparente disposição do governo em promover mudanças internas, em que pese a insistência no equívoco de confrontar o Congresso mantendo acesa a proposta de plebiscito ainda este ano para a reforma política. A sinalização de uma reforma ministerial revela, pela primeira vez, a admissão de responsabilidade na gestão ineficiente que gera as cobranças. Se acompanhada de uma redução da estrutura, melhor ainda.
As cobranças ao Congresso são de natureza ética e de distanciamento dos interesses da sociedade, o que se resolve com mudança de postura e legislação objetiva e eficiente. As cobranças ao governo, embora também incluam as de natureza ética, são por melhores serviços e gestão econômica séria. Que requerem, portanto, realizações, papel essencial do Executivo. Qualificar o ministério é, pois, a reforma que cabe ao governo.
Não são transferíveis as cobranças que pesam sobre o Executivo que, no entanto, tenta emparedar o Legislativo, num estratégia tão ineficiente quanto misteriosa, num momento de risco de isolamento da presidente da República. Só explicável, talvez, pela pressão do PT em impor desgaste ao rival na aliança, o PMDB . Ter-se-ia aí um embate paralelo entre os dois gigantes da base de sustentação, com a presidente apoiando o primeiro.
De qualquer forma, as versões desencontradas sobre a proposta de plebiscito – ora com o vice-presidente Michel Temer a considerando inviável para produzir resultados já em 2014, ora dizendo o contrário -, devem ser vistas apenas como parte visível de uma discussão que se tornou pública pela desorientação que tomou conta do governo após as manifestações de rua.
Em crises, governo e base costumam “limar para dentro”, uma expressão antiga que define a fase mais delicada da marcenaria, em que o artífice evita que a poeira de sua ação caia sobre a peça em elaboração. O que em política se dá quando os agentes políticos mergulham e retornam com um programa de emergência consensual, que adia as divergências internas. O que não parece possível a este governo, seja pela extensão de sua base, seja pela sua heterogeneidade – ou por ambas, em tempo de campanha antecipada.
Todos falam ao mesmo tempo – PMDB, PT, Dilma e, agora, depois de longo silêncio, o ex-presidente Lula, para descartar seu retorno como candidato. Como demorou demais, o gesto corre o risco de ser lido como uma desistência a que teria sido levado pela eclosão da crise nas ruas.
Importante observar que Lula, a exemplo de outros momentos, deixou para falar do exterior, provavelmente para que a distância geográfica consolide a imagem de descolamento pessoal da crise, em complemento ao olhar de paisagem que fez enquanto ela se materializava nas ruas do país.
Os cenários descritos indicam que todos resolveram trabalhar pela sua própria imagem (exceção para o momento ‘kamikaze” dos presidentes da Câmara e Senado com seus jatinhos), tentando salvar algum patrimônio eleitoral.
Nesse contexto, falta só a clássica proposta de renúncia coletiva do ministério, possivelmente do PMDB, em nome do desapego pela causa da reconstrução, que se daria com a presidente Dilma mais enfraquecida nas negociações e com menos força para privilegiar o PT.
Esgotado o repertório de diversionismos, a presidente parece dar sinais de conformação com a incontornável mudança a ser feita em seu território – do Executivo -, cujo efeito colateral será o reconhecimento nela implícito de que o marketing da gestora eficiente sucumbiu à centralização excessiva e à aversão ao exercício da política.
É o preço menor a pagar, porque possível de saldar com a moeda da humildade. Os 15 meses que tem pela frente podem sobrar ou faltar, a depender das escolhas que fizer – se pelos gestos de impacto e de pouco efeito concreto, se pela ruptura com o modelo implodido na reclamação dos contribuintes – eleitores atentos à campanha que ela própria antecipou.
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